Normas · 20 de outubro de 2026 · 8 min de leitura
Quando uma auditoria de qualidade pergunta se as ferramentas de aperto da sua planta são confiáveis, a resposta quase sempre passa por uma referência: a ISO 6789. É a norma internacional que trata das ferramentas de torque manuais, definindo como elas devem ser projetadas, ensaiadas e calibradas para que o valor indicado seja, de fato, o valor aplicado.
Neste artigo, explicamos de forma prática o que a ISO 6789 cobre, quais tipos de ferramenta ela abrange, o que muda entre as suas partes, como interpretar um certificado de calibração e onde ficam as chaves hidráulicas e as torqueadeiras nesse contexto. O objetivo não é substituir a leitura da norma, mas ajudar gestores e técnicos de manutenção a saber o que exigir de fornecedores e laboratórios.
Uma ferramenta de torque só tem valor se o número que ela mostra, ou no qual ela dispara, corresponder ao torque real entregue ao parafuso. Sem um critério comum, cada fabricante e cada laboratório poderia ensaiar e declarar a precisão do seu jeito, e o usuário não teria como comparar ferramentas nem confiar nos resultados.
A ISO 6789 cria essa base comum. Ela estabelece requisitos para as ferramentas de torque operadas manualmente, como torquímetros de estalo e torquímetros com indicação, e define os métodos para verificar se uma ferramenta atende a esses requisitos. Com isso, o desvio admissível, a forma de ensaio e as informações do certificado passam a seguir a mesma lógica em qualquer lugar.
Para a manutenção industrial, isso tem uma consequência direta: quando o procedimento de aperto exige um valor de torque, a ISO 6789 é o que dá respaldo técnico para afirmar que a ferramenta usada era capaz de aplicá-lo dentro de uma tolerância conhecida.
A norma organiza as ferramentas de torque manuais em dois grandes tipos, de acordo com a forma como o torque é controlado. Dentro de cada tipo há classes que diferenciam os princípios construtivos.
Mostram ao operador o valor de torque aplicado durante o aperto, por meio de escala, mostrador ou visor eletrônico. O operador para de girar quando a leitura atinge o valor especificado.
✅ Exemplos: torquímetros de barra, de mostrador e eletrônicos com leitura de valor.
São reguladas previamente para um valor de torque e sinalizam, geralmente com um estalo ou desarme, quando esse valor é atingido. São as mais comuns em linhas de montagem e manutenção.
✅ Exemplos: torquímetros de estalo ajustáveis, de valor fixo e chaves de desarme.
💡 Na prática: antes de especificar a calibração, identifique o tipo e a classe de cada ferramenta no seu inventário. Isso define o método de ensaio que o laboratório deve usar e evita certificados genéricos que não dizem muito sobre a ferramenta.
Na revisão mais recente, a ISO 6789 foi dividida em duas partes, cada uma com um foco diferente. Entender essa divisão ajuda a saber o que pedir ao fabricante e o que pedir ao laboratório de calibração.
A ISO 6789-1 trata dos requisitos da ferramenta e dos métodos de ensaio de conformidade. É a parte voltada principalmente aos fabricantes: define como verificar se o projeto e a produção de uma ferramenta atendem ao desvio admissível declarado e quais informações devem acompanhar a declaração de conformidade.
A ISO 6789-2 trata da calibração e da determinação da incerteza de medição. É a parte que interessa diretamente ao usuário e ao laboratório: estabelece como a ferramenta deve ser calibrada, quais fontes de incerteza devem ser consideradas e o que o certificado precisa informar.
Em resumo, a primeira parte responde à pergunta “esta ferramenta foi bem projetada e fabricada?”, e a segunda responde “qual é o comportamento desta ferramenta específica, hoje, e com que confiança sabemos disso?”.
Sem entrar nos valores numéricos, que devem ser consultados diretamente no texto da norma, os pontos centrais que ela estabelece são:
Um certificado de calibração não é apenas um carimbo de “aprovado”. Ele é o registro técnico do comportamento da ferramenta na data da calibração e deve permitir que qualquer auditor ou técnico entenda o que foi feito.
Ao receber o documento, confira se ele identifica a ferramenta de forma inequívoca (fabricante, modelo, número de série e faixa), se informa a norma e a parte utilizada, se apresenta os valores medidos em cada ponto ensaiado e o desvio em relação ao valor nominal, e se declara a incerteza de medição. Também devem constar a data, as condições ambientais, o padrão de referência usado e a identificação do laboratório responsável.
Outro ponto importante é verificar se o certificado mostra os resultados “como recebido”, antes de qualquer ajuste. Se a ferramenta chegou fora da tolerância, essa informação é valiosa: ela indica que os apertos feitos desde a última calibração podem precisar de avaliação.
⚠️ Atenção: uma ferramenta que chega ao laboratório fora da tolerância não é só um problema da ferramenta. Avalie quais juntas críticas foram apertadas com ela desde a última calibração e decida, com base no risco, se é necessário verificar ou refazer esses apertos.
Este é um ponto que gera confusão com frequência. O escopo da ISO 6789 são as ferramentas de torque operadas manualmente. Chaves de torque hidráulicas e torqueadeiras elétricas ou a bateria são ferramentas motorizadas e não se enquadram diretamente nesse escopo.
Isso não significa que elas dispensem calibração. No caso das chaves de torque hidráulicas, o torque é obtido a partir da pressão fornecida pela bomba, e a relação entre pressão e torque vem da tabela do fabricante. Por isso, a confiabilidade do aperto depende tanto da verificação da própria chave em bancada com transdutor de torque quanto da calibração do manômetro da bomba hidráulica.
Nas torqueadeiras elétricas e a bateria, a verificação também é feita com transdutores e segue procedimentos do fabricante ou de normas específicas para ferramentas motorizadas. Muitas empresas, porém, aplicam os mesmos princípios da ISO 6789 a essas ferramentas: pontos de ensaio na faixa de uso, repetições, incerteza declarada e histórico documentado. É uma boa prática, desde que o certificado deixe claro qual procedimento foi seguido.
A norma traz os critérios técnicos; a gestão do dia a dia fica com a empresa. Estes são os pontos que fazem diferença na prática:
Cada ferramenta de torque precisa de identificação única, registro de tipo, classe, faixa e localização. Sem isso, não há como rastrear qual ferramenta foi usada em qual junta.
✅ Dica: use etiquetas que indiquem a data da próxima calibração de forma visível.
O intervalo deve considerar a frequência de uso, a criticidade das aplicações, o histórico de resultados e a recomendação do fabricante. Ferramentas muito usadas ou que já chegaram fora da tolerância merecem intervalos menores.
✅ Dica: recalibre também após quedas, sobrecargas ou reparos, independentemente da data.
Toda ferramenta tem uma faixa de trabalho em que o desvio foi verificado. Usar o torquímetro muito perto do limite inferior ou acima do máximo compromete a confiabilidade do resultado.
✅ Dica: escolha a ferramenta de modo que o torque especificado fique bem dentro da faixa ensaiada.
Guardar os certificados é o mínimo. Comparar os resultados de calibrações sucessivas mostra se a ferramenta está se desgastando e ajuda a antecipar manutenção ou substituição.
✅ Dica: registre também os resultados “como recebido” para avaliar a estabilidade de cada ferramenta.
A calibração mostra como a ferramenta estava em um momento. O que acontece depois depende do uso. Torquímetros de estalo, por exemplo, devem ser guardados com a regulagem no valor mínimo da escala, para não manter a mola sob carga por longos períodos. Quedas, uso como alavanca para soltar parafusos e armazenamento em locais úmidos ou com poeira também afetam o desempenho.
No caso das ferramentas hidráulicas, o cuidado se estende a mangueiras, engates e manômetro. Um manômetro danificado ou uma mangueira com vazamento alteram a pressão efetivamente entregue à chave e, com ela, o torque aplicado. Para quem quer aprofundar esse tema, o artigo Calibração de chave de torque: frequência e boas práticas traz orientações complementares.
Atender à ISO 6789 não é um projeto pontual, mas um processo contínuo de controle das ferramentas. Para as ferramentas manuais, isso passa por laboratórios capacitados; para as hidráulicas e motorizadas, por fornecedores que conheçam a ferramenta e ofereçam verificação, manutenção e documentação adequadas.
A New Torque oferece venda e locação de chaves de torque hidráulicas de encaixe (linha Drive) e vazadas (linha Link), torqueadeiras elétricas e a bateria, bombas hidráulicas, soquetes, adaptadores e mangueiras, além de assistência técnica para manter as ferramentas em condição de uso. Para paradas e juntas críticas, a empresa também executa serviços de torqueamento hidráulico e tensionamento de parafusos.
A norma traz orientações sobre o assunto, mas o intervalo adequado deve ser definido pela empresa, considerando a intensidade de uso, a criticidade das aplicações, o histórico de calibrações e a recomendação do fabricante. Eventos como quedas, sobrecargas e reparos exigem nova calibração antes do uso.
A ISO 6789 se aplica a ferramentas de torque manuais. Chaves hidráulicas seguem procedimentos próprios, que incluem a verificação da chave com transdutor de torque e a calibração do manômetro da bomba. Ainda assim, é recomendável que o certificado traga pontos de ensaio, desvios e incerteza, seguindo a mesma lógica da norma.
Retire a ferramenta de uso, avalie se ela pode ser ajustada ou reparada e recalibrada, e verifique quais juntas foram apertadas com ela desde a calibração anterior. Para juntas críticas, pode ser necessário conferir ou refazer o aperto.
A ISO 6789 é a referência que dá confiabilidade às ferramentas de torque manuais: define o que se espera da ferramenta, como ela deve ser ensaiada e calibrada e o que o certificado precisa informar. Conhecer a norma ajuda a exigir certificados completos, a interpretar corretamente os resultados e a tomar decisões quando uma ferramenta sai da tolerância.
Para as ferramentas hidráulicas e motorizadas, que ficam fora do escopo direto da norma, os mesmos princípios de verificação, incerteza e histórico continuam valendo. Com inventário organizado, intervalos bem definidos e cuidados no uso, a planta transforma a calibração em um processo de gestão, e não apenas em uma exigência de auditoria.
Fale com a equipe técnica da New Torque sobre venda, locação e assistência técnica de ferramentas de torque para a sua operação.